
Debulhar o trigo / recolher cada bago do trigo / forjar no trigo o milagre do pão
/ e se fartar de pão / Decepar a cana / recolher a garapa da cana / roubar da
cana a doçura do mel / se lambuzar de mel / Afagar a terra / conhecer os
desejos da terra / cio da terra / a propícia estação / e fecundar o chão.
Debulhar, recolher, forjar, fartar, decepar, roubar, lambuzar, afagar, fecundar… Em cada verso e em cada verbo dessa canção ecoa um hino ao dia 1º de maio, aqui tomado enquanto um dia de luto e de luta, enquanto um dia de renascimento contra toda forma de injustiça, exclusão e opressão. A canção é de Chico Buarque e Milton Nascimento e foi lançada na segunda metade da década de 1970, em meio às greves da região do ABC paulista, momento de renascimento das grandes marchas e lutas das trabalhadoras e dos trabalhadores brasileiros.
Em nível internacional, a adoção do primeiro de maio como marco simbólico das lutas da classe trabalhadora, é invenção do século XIX, a partir da década de 1880.
Nas palavras do historiador marxista Eric Hobsbawm, “o 1º de Maio começou numa época de extraordinário crescimento e enorme expansão dos movimentos operários e socialistas de numerosos países, e dificilmente poderia ter-se estabelecido num clima político menos promissor”. Carregado de toda uma simbologia que tinha a ver com o renascimento da vida, com a colheita, com o início da primavera, sua marca inicial foram as grandes assembleias e greves que exigiam a jornada de trabalho de oito horas. A definição da data também está ligada à violenta repressão a uma assembleia operária da cidade de Chicago, nos Estados Unidos da América, no dia primeiro de maio de 1886. Nessa data, milhares de mulheres e homens estavam em greve e manifestavam-se pela jornada de oito horas, paralisando o mais importante parque industrial dos EUA. A morte, na prisão, de um dos líderes e o enforcamento de outros quatro trabalhadores, um ano e meio após essa manifestação, ajudou a consolidar a data do primeiro de maio como o “o único feriado, mesmo entre os aniversários radicais e revolucionários, a associar-se apenas à classe operária”.
Primeiro de maio é dia de luto e luta, em homenagem aos mártires de Chicago e a todas as mulheres, homens e crianças que tombaram sob o peso da injustiça e da violência dos patrões e dos estados servis à lógica exploratória do sistema capitalista em todo o mundo. Primeiro de maio é dia de fazer renascer a chama da esperança por um mundo em que as trabalhadoras e os trabalhadores tenham direitos iguais, tenham condições dignas de trabalho e salários condizentes com o respeito à suas humanidades. No atual contexto da luta sindical no Brasil, o primeiro de maio também é dia de atualizarmos a reivindicação da jornada de trabalho de trinta horas semanas e o fim da escala seis por um; é dia de luta contra a misoginia, o machismo, o racismo, o capacitismo, o etarismo e toda forma de exclusão nos mundos do trabalho em nossas sociedades.
A fotografia que abre este breve ensaio nos convida a atualizar, no presente instante, as assembleias e atos que, a exemplo do 1º de maio de 1978, faziam ecoar, no centro da cidade de Rio Branco, as manifestações de trabalhadoras e trabalhadores dos seringais acreanos, que, de modo expressivo e muito significativo, em suas lutas pela vida e por permanecer no interior da floresta – com a floresta em pé – colocavam em questão a política de integração e desenvolvimento econômico da Amazônia. Lutas essas gestadas no mesmo contexto em que ocorriam os levantes operários do ABC e que, portanto, desafiavam a opressão de um governo autoritário e as violências dos latifundiários e de seus capatazes.
O filósofo Didi-Huberman afirmou que “o que vemos só vale – só vive – em nossos olhos pelo que nos olha”. Isso quer dizer que há um encontro entre o que vemos na imagem e aquilo que, na imagem, nos olha. Um encontro entre aquilo que vem do passado e que nos surpreende no presente, entre aquilo que é herdado do passado e o modo como essa herança pode ser transmitida no presente. Essa percepção nos convida e problematizar as fraturas e as fissuras de nosso presente. Um presente em que pautas, tópicas e causas não resolvidas são deixadas de lado em troca de acordo circunstanciais, de protocolos institucionais, de esquecimentos e apagões ocasionais, de esvaziamento de lutas, de conciliação com o inconciliável, de silêncio frente ao intolerável, de falta de movimentação no chão de barro do mundo presente.
No Brasil dos tempos de agora, enquanto os políticos e as políticas de uma direita autoritária, conservadora e retrógrada avançam para solapar o frágil estado de direito no país e para desfazer todas as conquistas de nossas lutas sindicais, estudantis e sociais ou para solapar os direitos das classes trabalhadoras e das camadas mais vulneráveis, a imagem do ato público do 1º de maio de 1978, realizado na quadra de esportes do Instituto São José, na capital acreana, nos interpela a responder o que é que estamos ajudando a fazer com nós mesmos, com nós mesmas.
Não temos motivos para festas e nem para desperdiçar o agora com dispositivos de honra, com alianças eleitoreiras e oportunistas ou com selfies medíocres e banais. Nesse primeiro de maio, temos a responsabilidade de relembrar e honrar os nomes daquelas pessoas que tombaram pelas causas ainda não resolvidas e a possibilidade de retomar ou fazer renascer as lutas coletivas e as utopias de um mundo melhor, um mundo de valorização da igualdade com amplo e irrestrito respeito às diferenças. Um mundo em que todas e todos possam debulhar o trigo, recolher seus bagos, forjar o pão, se fartar de pão e, com a mesma disposição, decepar a cana, recolher a garapa da cana, se lambuzar de mel, afagar a terra, conhecer seus desejos, fecundar a vida, o chão, espalhar as flores da primavera…
Gerson Albuquerque
Presidente da Adufac – Seção Sindical da Andes
Sindicato Nacional, 1º de maio de 2026
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